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Venezuela, Peru e Colômbia: por que a América Latina registra terremotos com frequência

Especialistas explicam por que países sul-americanos registram frequentes terremotos

| Autor: Ramilton Silva
Venezuela, Peru e Colômbia: por que a América Latina registra terremotos com frequência

Foto: Reprodução/Magnific

Uma sequência de terremotos de diferentes intensidades voltou a chamar a atenção para a atividade sísmica na América Latina. Nos últimos meses, Venezuela, Peru e Colômbia foram atingidos por fortes abalos, alguns deles com mortes, destruição de imóveis e milhares de pessoas afetadas.

Apesar da proximidade temporal entre alguns dos episódios, especialistas não apontam evidências de que a região esteja passando por um aumento anormal da atividade sísmica. O que existe é uma combinação entre a localização geológica de parte do continente, a movimentação constante das placas tectônicas e períodos de maior concentração de terremotos.

Um dos episódios mais graves ocorreu na Venezuela, em 24 de junho. Dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram a região de La Guaira com apenas 39 segundos de diferença. Os tremores foram considerados incomuns pela sequência e foram seguidos por centenas de réplicas. O fenômeno ocorreu em uma área de contato entre as placas do Caribe e Sul-Americana.

Os terremotos venezuelanos provocaram grandes danos e deixaram milhares de mortos, além de mobilizarem equipes de resgate em diferentes pontos do país. A dimensão da tragédia também expôs dificuldades relacionadas à infraestrutura e à capacidade de resposta diante de desastres de grande proporção.

Colômbia enfrenta um dos maiores terremotos de sua história recente

Poucas semanas depois, a Colômbia registrou outro terremoto de grande intensidade. Em 10 de agosto, um abalo de magnitude 7,4 atingiu o oeste do país, com epicentro na região de San José del Palmar, no departamento de Chocó.

O tremor foi sentido em cidades como Cali e Pereira e também em áreas de países vizinhos. Prédios foram danificados ou destruídos, enquanto equipes de emergência passaram a atuar nas regiões mais atingidas.

Até 19 de agosto, o número de mortos havia chegado a pelo menos 314, segundo informações divulgadas pelo governo colombiano. Centenas de pessoas também estavam desaparecidas e milhares foram afetadas pelos danos provocados pelo terremoto.

Além das perdas humanas, o desastre provocou impactos expressivos sobre a infraestrutura. Casas, escolas, unidades de saúde, estradas, sistemas de abastecimento de água e aeroportos foram atingidos. Uma estimativa preliminar apresentada pelo governo apontou prejuízos de aproximadamente 30 trilhões de pesos colombianos, o equivalente a cerca de US$ 9,6 bilhões.

Peru também registrou terremoto com mortes

No Peru, outro terremoto de forte intensidade ocorreu em julho. Na noite de 18 de julho, um tremor atingiu a região de Junín, nos Andes peruanos. O evento foi registrado inicialmente com magnitude de 5,1 pelo Centro Sismológico Nacional do país, enquanto outras instituições apresentaram estimativas diferentes para a magnitude.

O terremoto provocou pelo menos seis mortes, deixou mais de 30 pessoas feridas e fez cerca de 300 moradores deixarem suas casas. Dezenas de imóveis foram destruídos ou danificados, principalmente construções feitas com adobe, material mais vulnerável aos efeitos dos tremores.

O impacto também atingiu construções históricas da região, incluindo uma igreja e um antigo convento construídos no século XVI. O episódio voltou a evidenciar a vulnerabilidade de comunidades localizadas em áreas de forte atividade sísmica.

Por que terremotos são tão frequentes na América Latina?

A explicação está, principalmente, na própria formação geológica do continente. A costa oeste da América do Sul está localizada em uma das áreas mais ativas do planeta, onde a placa de Nazca se desloca em direção à placa Sul-Americana e mergulha por baixo dela.

Esse processo, conhecido como subducção, está diretamente relacionado à formação da Cordilheira dos Andes e à ocorrência de numerosos terremotos ao longo da costa do Pacífico. O sistema se estende por milhares de quilômetros e inclui países como Peru, Chile, Equador e Colômbia.

Na Venezuela, a dinâmica é um pouco diferente. O norte do país está próximo do limite entre as placas do Caribe e Sul-Americana. Nesse setor, grandes sistemas de falhas geológicas acomodam o movimento entre as placas, podendo provocar terremotos de elevada intensidade.

Por isso, países localizados nessas regiões convivem historicamente com terremotos. O chamado Círculo de Fogo do Pacífico, que envolve a costa oeste das Américas e outras áreas banhadas pelo Pacífico, concentra grande parte da atividade sísmica mundial.

Afinal, os terremotos estão acontecendo com mais frequência?

A percepção de que terremotos estão ocorrendo em maior quantidade pode ser reforçada quando vários eventos de grande magnitude acontecem em um intervalo curto. No entanto, isso não significa necessariamente que o planeta esteja passando por um aumento permanente da atividade sísmica.

De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), períodos de aumento ou redução no número de terremotos fazem parte das variações naturais da atividade sísmica. A instituição também destaca que o crescimento no número de registros ao longo dos anos está relacionado, em parte, à ampliação das redes de monitoramento, que hoje conseguem detectar tremores menores com muito mais facilidade.

Assim, a ocorrência de terremotos fortes na Venezuela, no Peru e na Colômbia em um intervalo relativamente curto não permite afirmar que um grande terremoto esteja prestes a acontecer em outro país da região.

Bahia também registra tremores

Embora o Brasil esteja em uma situação geológica diferente dos países localizados nas bordas das placas tectônicas, o território brasileiro também registra atividade sísmica.

Na Bahia, o Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabSis/UFRN) registrou diversos tremores ao longo de 2026. Em 2 de julho, por exemplo, um evento de magnitude preliminar 1,7 foi identificado na região de Jacobina. Segundo o laboratório, moradores das proximidades relataram ter sentido o abalo.

Outros registros ocorreram durante o ano. Em maio, um tremor de magnitude 2,0 foi identificado na região de Mutuípe, sem relatos de que tenha sido percebido pela população. Em junho, eventos foram registrados próximos ao litoral sul da Bahia e na região de Itagibá.

Também houve registros em municípios como Aiquara, Jaguarari e Jacobina. A maior parte desses eventos apresentou baixa magnitude e não provocou danos estruturais.

A diferença está justamente na posição geológica do Brasil. O país está predominantemente localizado no interior da placa Sul-Americana, distante das principais zonas de contato entre placas. Isso reduz a ocorrência de grandes terremotos, mas não elimina a possibilidade de tremores.

Impactos dependem de mais do que a magnitude

Os terremotos recentes também mostram que a magnitude não é o único fator que determina o tamanho de uma tragédia. A profundidade do tremor, a distância em relação às áreas habitadas, o tipo de solo e a qualidade das construções influenciam diretamente os danos.

O terremoto registrado no Peru, por exemplo, atingiu uma área onde muitas casas eram construídas com adobe, material que contribuiu para o agravamento dos danos.

Na Colômbia, por outro lado, a extensão territorial atingida e a concentração populacional fizeram com que os efeitos fossem sentidos em diferentes cidades. Além das mortes e dos feridos, o país passou a enfrentar uma operação de reconstrução de infraestrutura e assistência às famílias que perderam suas casas.

Os episódios reforçam a importância de sistemas de monitoramento, protocolos de emergência, construções preparadas para resistir a abalos e treinamento da população. Em regiões onde os terremotos fazem parte da realidade geológica, a prevenção pode ser decisiva para reduzir o número de vítimas quando um novo grande tremor ocorrer.

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